Revista Landa - Qualis B3

Membro há

2 anos 1 mês
Instituição
Universidade Federal de Santa Catarina
Outras Informações
Chamada para publicação 2021/1
Prazo para envio dos trabalhos: 10 de março de 2021

A partilha do fogo

Em uma resenha de Walter Benjamin, dedicada a El circo (1917) de Ramón Gómez de la Serna, texto surpreendentemente obliterado pela crítica eurocentrada, se afirma que as “idéias mais inauditas e curativas”, as próprias iluminações profanas, vêm de um nada, de um quase nada. Lançando mão desse “quase nada”, em conferência de 2019 dedicada a Benjamin, Raúl Antelo propunha a figura do artista saltimbanco como aquela figura que daria conta, justamente, da nossa própria pobreza.

O saltimbanco é a evidência de uma pura potência de significação, antes das formas e no lugar vazio das forças. Está como que atravessado por um nada, por uma espécie de vazio constituinte do poder ou por um jogo que, longe da função ritualística do trickster (que pressupõe a existência de um laço social, de uma sociedade estruturada à qual ele serve como figura de transgressão), e longe de uma catarse revigorante como a que permitiria o conservadorismo picaresco, vive uma vida póstuma sem ter vivido nunca uma vida viva. Isso quer dizer que o saltimbanco está mais próximo do caráter criatural que o humano adquire no barroco do que dos restos, sempre dignos, constituídos pelas ruínas de monumentos ou pelas peças de um antiquário. É artista da fome antes dos atributos da arte.

Ora, um bufão não é um palhaço, e nem um saltimbanco. Não é do todo ao nada nem do nada ao todo que o bufão transita, mas do nada ao nada. É a imagem de uma escatologia de dupla mão, entre o éskhatos (final) e o skatós (excremento) com que não raramente brinca. O que acontece quando longe de entreter o trono, o bufão passa a ocupá-lo? O que acontece quando as cabeças cortadas não são mais a exceção que faz a regra, nem a vida algo a ser administrado, mas o próprio cerne de um “fazer morrer” que, de acordo com Achille Mbembe, constituiria a necropolítica longe dos centros metropolitanos da bíos?

De que maneira pensar hoje –em tempos de éskhatos que se administram e se vivem a partir da lógica do skatós– a nossa própria pobreza? As condições atuais do trabalho, da técnica e da política nos permitem a iluminação profana de uma pura potência de significação, ou também fomos despojados desse supremo bom gosto que foi eleger entre os nossos próprios pesadelos? O circo, finalmente, pegou fogo ou o fogo se tornou o próprio circo? A merda suplementar ocupou o lugar dos fundamentos e das fundações? As violências privatizadas equivalem ao moderno, e já passado, “monopólio da violência”? Que diferença implicam essas violências?

Nestes tempos de pandemias, de milícias, de negacionismos e de terras planas, é a partir dessas perguntas que a revista Landa abre sua chamada para trabalhos que abordem momentos, nuances e cenas dessa passagem do bio ao necropolítico. Convidamos os interessados a pensar essa passagem nas artes e nas literaturas das Américas todas do mundo que resta.

Trabalhos que não respeitem as normas editoriais não serão aceitos. As normas podem ser consultadas em: http://www.revistalanda.ufsc.br/diretrizes

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ISSN
23165847